LexLegal
21/05/2026
O desenvolvimento de novos insumos farmacêutico ativos (IFAs) no Brasil coloca em foco a fragilidade da soberania sanitária nacional: o país produz hoje apenas 5% dos insumos que consome. O projeto de uma molécula inédita para tratar a doença venosa crônica tenta atacar um mercado que deve movimentar US$ 8,96 bilhões globalmente em 2026. A iniciativa busca criar uma alternativa nacional para uma condição associada às varizes e outros problemas circulatórios que afetam até 30% da população adulta do país.
A pesquisa foca na chamada inovação radical, que é a criação de um componente químico inexistente no mercado, em vez de apenas reproduzir fórmulas já conhecidas. O trabalho começa nos testes iniciais em laboratório e segue até a adaptação da substância para produção em escala industrial, etapa que exige integração entre pesquisa científica e capacidade de fabricação.
Se bem-sucedido, o medicamento poderá reduzir custos para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para o setor privado, que enfrentam gastos crescentes com o envelhecimento populacional e o sedentarismo.
A patologia além da estética e o gargalo dos insumos
As varizes são frequentemente subestimadas como um problema estético, mas a doença venosa crônica pode evoluir para quadros graves de úlceras, edemas e alterações permanentes na pele. A busca por um fármaco que atue especificamente na fisiopatologia da doença tenta oferecer terapias menos invasivas do que as intervenções cirúrgicas tradicionais.
O desafio jurídico e regulatório para registrar uma molécula nova é maior do que o de genéricos, exigindo desenhos de estudos clínicos rigorosos e aprovação detalhada das autoridades sanitárias.
“Hoje o Brasil produz apenas cerca de 5% dos IFAs que consome. Em doença venosa crônica, isso significa dependência de tecnologias importadas para atender a milhões de pacientes. Ao criarmos junto com a Science uma nova molécula, usamos nossa capacidade fabril e de P&D para fazer inovação no Brasil e entregar um novo insumo competitivo de alto impacto no SUS, por exemplo”, afirma Marcelo Mansur, CEO da Nortec Química. Segundo Mansur, a autonomia na produção de insumos é estratégica para evitar o desabastecimento em crises globais.
Mercado de biotecnologia e o potencial de exportação
O setor de doenças venosas cresce impulsionado por fatores hormonais e pelo perfil de vida moderno, o que gera uma demanda bilionária por soluções custo-efetivas. Ao desenvolver a síntese química em território nacional, o projeto tenta posicionar o Brasil como um exportador de tecnologia farmacêutica, e não apenas um comprador de patentes estrangeiras.
A criação de laboratórios de alta potência e o investimento em pesquisa clínica são os caminhos apontados para que o país deixe de ser um mercado secundário de fármacos.
“A indústria farmacêutica brasileira passou por evolução importante ao longo dos anos, desde processos mais artesanais lá atrás até chegar em tecnologias de ponta, como biotecnologia, medicina personalizada e até inteligência artificial ajudando na descoberta de novos medicamentos. Sem falar que as exigências regulatórias ficaram mais sofisticadas e, ao mesmo tempo, a preocupação com acesso e sustentabilidade se intensificou. É um setor que não para de evoluir”, diz Guillermo Glassman, especializado em direito público, propriedade intelectual, contencioso estratégico e sócio do L.O. Baptista Advogados.
Mercado global, dependência externa e os gargalos da inovação brasileira
Existe ainda um fator econômico pouco debatido. Muitas vezes, desenvolver inovação farmacêutica em escala nacional exige pensar o mercado internacional desde o início. O consumo interno, sozinho, pode não sustentar determinados projetos.
Isso ocorre porque medicamentos de alta complexidade precisam de grande escala para se tornarem financeiramente viáveis. Para especialistas, o Brasil ainda enfrenta problemas estruturais.
“O entrave reside em uma política industrial retrospectiva. Historicamente, o principal instrumento de desenvolvimento industrial do país priorizou a internalização de tecnologias maduras em vez de fomentar a fronteira tecnológica”, explica Antonio Carlos Matos da Silva, estrategista de sistemas de saúde e conselheiro em gestão e inovação.
Outro ponto central é a concentração global da produção de IFAs. Durante décadas, China e Índia consolidaram vantagem competitiva ao combinar custos reduzidos, mão de obra especializada e regras ambientais mais flexíveis. A pandemia e os conflitos internacionais mudaram esse cenário. Países passaram a rever cadeias produtivas e a buscar maior segurança de abastecimento.