16/4/2026
Capital Aberto
Responsável por 25% do PIB brasileiro, o agro possui um enorme potencial de crescimento no mercado de capitais, mas ainda vive um descompasso entre sua relevância econômica e o real acesso ao crédito privado. O setor ainda enfrenta barreiras para aumentar as operações no mercado de crédito por conta da padronização, previsibilidade e transparência das informações.
O agro brasileiro cresceu muito e o crédito público já não está mais conseguindo financiar tudo, observou Maria Elisa Parente, do L.O. Baptista Advogados. “Já temos operações do agro no mercado de capitais, mas ele ainda é pequeno para o tamanho do setor e é pouco acessível e pouco padronizado”, acrescentou.
Dados da B3 indicam que o estoque de Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), registrado na bolsa, cresceu 16% em 2025, somando R$ 599,9 bilhões.
Já o levantamento da Anbima mostrou que os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) captaram R$ 46,2 bilhões em 2025, um crescimento de 11,1% em relação ao ano anterior. Os FIAGROs captaram R$ 6,4 bilhões no mesmo período, representando um crescimento de 31,3% na comparação com 2024, de acordo com o mesmo levantamento.
Diante deste cenário, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Ministério da Agricultura anunciaram no início de abril um acordo de cooperação técnica que visa fomentar o desenvolvimento do setor agropecuário por meio do mercado de capitais.
A iniciativa é muito importante porque busca traduzir o conhecimento técnico e capacitar os produtores sobre as oportunidades no mercado de capitais, para fazer a conexão entre o produtor e o detentor do crédito, explicou Maria Elisa.
Títulos do agro
O escopo de produtos para o agronegócio inclui CRA, LCA, Cédula do Produtor Rural (CPR) e o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (FIAGRO), outro tipo de fundo de investimento focado inteiramente no agro. Neste último, pode ser do tipo Imobiliário (Fiagro-FII), Fiagro-Direitos Creditórios (Fiagro-FIDC) ou Fiagro – Participações (Fiagro-FIP).
O crescimento dos FIDCs é consequência direta de um movimento estrutural no crédito, disse Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital. As empresas continuam precisando de financiamento, mas os bancos tradicionais ficaram mais seletivos, mais burocráticos e mais lentos, ele acrescentou.
Na prática, o crescimento é puxado por três fatores principais, que incluem mais tecnologia na análise de crédito, estruturas mais rápidas e próximas do cliente e maior abertura de mercado e acesso a capital, acrescentou Da Matta.
O principal desafio do agro hoje é padronização, afirmou no CEO da Audax. “Como o mercado ainda é muito flexível, cada operação acaba sendo estruturada de forma diferente”, afirmou.
A tendência é que a tecnologia ajude a organizar a padronização e a previsibilidade, que está diretamente ligada à qualidade da análise, afirmou Da Matta.
Na avaliação de Da Matta, a transparência evoluiu, principalmente com a entrada de novos investidores e mudanças regulatórias. O caminho natural é mais uso de tecnologia e dados, com informações mais organizadas e acompanhamento mais claro das operações, acrescentou.
Crescimento qualitativo
O agro precisa não apenas de um crescimento quantitativo, mas qualitativo também, acrescentou a advogada da L.O. Baptista. Este crescimento qualitativo, segundo ela, inclui a padronização das informações e da estrutura das operações. Caso contrário, será difícil ganhar escala, ela acrescentou.
Um dos desafios do setor é a diferença muito grande de padrão das operações, quando se compara risco, transparência da informação, as obrigações de lado a lado. Para escalar o capital, é necessário que se tenham dados confiáveis e previsibilidade para o investidor.
Quando o agronegócio começa a acessar o mercado de capitais, ele começa a conviver com um nível de exigência e de disclosure que não era tão presente no crédito tradicional, explicou a advogada. “No caminho de crédito tradicional, a empresa não é exigida em termos de governança e de periodicidade de publicação de informação”, disse Maria Elisa.
Este ponto é interessante, a partir do momento que surge para eles uma demanda por informações mais estruturadas sobre dados de safra, produtividade, histórico operacional, exposição climática. “Claro que não será necessariamente no nível de uma companhia aberta, mas terá de ter mais consistência, mais frequência”.
O agro brasileiro sempre teve estes dados, mas não necessariamente dados estruturados para o mercado de capitais, disse Maria Elisa. Então, o que deve acontecer a partir desta cooperação entre a CVM e o Ministério é buscar a “financeirização dessa informação”, ou seja, transformar estes dados da safra e produção em uma informação confiável para o investidor.
“Será preciso traduzir o risco produtivo em linguagem financeira,” disse Maria Elisa.
Ela citou o exemplo de uma agtech que desenvolveu no ano passado, quando o Banco do Brasil teve a maior inadimplência da sua história na divisão de agronegócio, na qual o pecuarista usa a plataforma de gestão do banco. Neste caso, o banco entendeu que o grande problema de inadimplência estava ligado à falta de dados e o uso da plataforma diminui esta assimetria.
Outros dados confiáveis, de transparência podem incluir o uso mais estruturado da CPR financeira, a alienação fiduciária de terras, o penhor da safra, cessão de recebíveis, Maria Elisa acrescentou. “Isso é importante porque apesar de conseguir estruturar, por exemplo, a garantia documental, continua a dúvida de tornar esta garantia efetiva em caso de inadimplência”, explicou.
Disponível em: https://capitalaberto.com.br/mercados/agro-mercado-de-capitais-credito-privado/