Valor Econômico
15/06/2025
Grande parte dos instrumentos de crédito disponíveis para o setor ainda está estruturada para modelos tradicionais de produção, com exigência de garantias reais, histórico consolidado e previsibilidade de fluxo de caixa
Por Maria Elisa Parente
Uma empreendedora desenvolve um defensivo agrícola de base botânica, com potencial de reduzir impactos ambientais e aumentar a produtividade. Atua na recuperação de áreas degradadas, mantém projetos com comunidades locais e já validou tecnicamente sua solução. Ainda assim, após anos de tentativa, não consegue acessar crédito ou investimento em escala. O problema não é a tecnologia. Nem a demanda. É o financiamento.
O agronegócio brasileiro responde por cerca de 25% do PIB e quase metade das exportações brasileiras, além de ocupar posição central no debate sobre sustentabilidade. Ainda assim, quando se observa a dinâmica de financiamento, emerge um paradoxo: justamente os projetos com maior potencial de impacto ambiental e ganho de eficiência enfrentam mais dificuldade para acessar capital.
O caso não é isolado. Ele expõe um descompasso crescente entre o discurso de sustentabilidade, cada vez mais presente em relatórios, compromissos corporativos e políticas públicas, e a realidade dos instrumentos disponíveis para financiar a inovação no campo. Em um ambiente em que a agenda ESG ganhou centralidade, a dificuldade de transformar intenção em capital produtivo revela uma limitação estrutural.
O Brasil construiu uma posição relevante no agronegócio global, apoiada em ganhos de produtividade, avanço tecnológico e expansão de cadeias produtivas. Recentemente, passou também a ocupar espaço relevante no debate sobre sustentabilidade, seja pela matriz energética limpa, seja pelo potencial de produção em bases de baixo carbono. No entanto, quando se observa a dinâmica de financiamento, esse potencial encontra limites.
Grande parte dos instrumentos de crédito disponíveis para o setor ainda está estruturada para modelos tradicionais de produção, com exigência de garantias reais, histórico consolidado e previsibilidade de fluxo de caixa. Trata-se de uma lógica que funciona para operações maduras, mas que se mostra pouco aderente a negócios inovadores, especialmente aqueles baseados em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, cujos ciclos são mais longos e o risco mais elevado.
Na prática, isso significa que ativos relevantes, como propriedade intelectual, tecnologia desenvolvida ou impacto ambiental positivo, têm pouca ou nenhuma capacidade de servir como garantia. O sistema privilegia o que é tangível e historicamente comprovado, mas encontra dificuldade para precificar e absorver o risco associado à inovação.
Sob a perspectiva jurídica, esse descompasso também se manifesta na ausência de estruturas adequadas para financiar esse tipo de iniciativa. O ordenamento oferece alternativas consolidadas para crédito tradicional e para investimentos de capital, mas ainda carece de instrumentos mais flexíveis, capazes de acomodar modelos híbridos. Estruturas como venture debt, mecanismos de compartilhamento de risco e soluções que não dependam exclusivamente de garantias reais seguem pouco difundidas ou subutilizadas no agro.
Nesse cenário, empresas que atuam na fronteira da inovação, como as agtechs, enfrentam um duplo desafio. De um lado, não se enquadram nos critérios tradicionais do crédito rural ou corporativo, cujo volume supera R$ 400 bilhões por safra. De outro, ainda não encontram, no Brasil, um mercado suficientemente maduro de capital de risco voltado ao agro, capaz de absorver o perfil de risco e o tempo de maturação desses projetos. O resultado é um vazio de financiamento justamente no segmento que concentra parte relevante das soluções para os desafios climáticos e produtivos do setor.
Há também um componente institucional. A arquitetura dos instrumentos públicos e privados de financiamento ainda não acompanhou a transformação do próprio agronegócio. Programas de incentivo, linhas de crédito e mecanismos de apoio à inovação nem sempre dialogam entre si, nem estão estruturados para atender modelos que combinam tecnologia, sustentabilidade e novos formatos de negócio. Na prática, cria-se um desalinhamento entre o que se pretende estimular e aquilo que efetivamente se consegue financiar.
Essa desconexão gera efeitos que vão além das empresas diretamente afetadas. Ao limitar o acesso a capital, reduz-se a capacidade de escala de soluções que poderiam contribuir para ganhos de produtividade, redução de custos e mitigação de riscos ambientais. Em um cenário internacional cada vez mais competitivo e pressionado por critérios de sustentabilidade, isso representa uma perda concreta de posicionamento e uma oportunidade desperdiçada de liderança.
Superar esse gargalo exige mais do que ampliar volumes de crédito. É necessário repensar o desenho dos instrumentos disponíveis, incorporando mecanismos mais adequados ao financiamento da inovação, com maior flexibilidade, compartilhamento de risco e integração entre diferentes fontes de capital. Passa por reconhecer que financiamento é, na prática, uma forma de política pública indireta, capaz de direcionar o ritmo e a direção do desenvolvimento econômico.
O Brasil não parte do zero. Há conhecimento técnico, base produtiva e iniciativas relevantes em andamento. O desafio está em alinhar o sistema de financiamento a essa nova realidade. Sem isso, o país corre o risco de manter no discurso uma agenda de sustentabilidade que, na prática, encontra dificuldade para sair do papel e de perder a oportunidade de liderar justamente na agenda que mais poderia impulsionar seu próximo ciclo de crescimento.
Maria Elisa Parente é advogada e sócia no L.O. Baptista
Disponível em: O gargalo invisível da inovação no agro | Legislação | Valor Econômico
