Canal Energia
23/8/2024
Não é novidade para ninguém que o setor de energia vem passando por muitas mudanças ao longo dos últimos anos. E as novas tecnologias estão impulsionando cada vez mais o mercado, ajudando-o a se tornar mais moderno e eficiente, como é o caso da blockchain.
Segundo os especialistas ouvidos pela reportagem da Agência CanalEnergia, a esperança é que o sistema de blockchain possa de fato revolucionar o setor energético de modo que possamos aumentar e incentivar a utilização de energias sustentáveis, diminuir a níveis irrisórios a utilização de dióxido de carbono, aumentar a efetividade da operacionalização do setor energético, fornecer transações mais transparente e seguras, e o mais importante, levar um produto para o consumidor final com um preço justo.
Uma pesquisa realizada pelo Movimento Inovação Digital e PwC Brasil mostrou que que 83% dos entrevistados acreditam que blockchain, criptomoedas, tokens e DREX terão um impacto disruptivo em seus respectivos setores. No entanto, apesar dessa percepção, 59% estão aguardando desenvolvimentos adicionais no setor, e apenas 3 em cada 10 estão avançando ativamente com a adoção dessas inovações. O estudo foi realizado com 48 empresas de diferentes setores da economia.
O estudo também aponta que 50% dos respondentes possuem conhecimento razoável das diferentes tecnologias através de informações de mercado, porém sem utilização prática. Já em relação aos benefícios que a blockchain, criptomoedas, tokens e DREX podem trazer para as empresas, metade dos respondentes entende que existem vantagens desses temas para o negócio, porém ainda não possuem clareza de como capturar e aplicar a tecnologia. 42% dos entrevistados estão aguardando a maturação do setor para intensificar os avanços tecnológicos envolvendo os 4 temas.
Um outro relatório da PwC aponta que a tecnologia blockchain pode transformar a forma como partilhamos e armazenamos dados, com o potencial de adicionar cerca de US$ 1,76 trilhão à economia global até 2030.
A tecnologia
É importante ter em mente que essa é uma tecnologia destinada a fazer rastreamento de informações de forma inviolável. Então, seu maior benefício é, justamente, trazer uma maior segurança no rastreamento das informações de todos os setores, inclusive o de energia. Segundo o especialista de gestão da Palas, Alexandre Pierro, há uma maior transparência e proteção dos dados de consumo da empresa e fornecedores com essa tecnologia e há a possibilidade de realizar um mapeamento P2P entre o fornecedor e o consumidor final, além de ter uma visão mais completa sobre sua rastreabilidade (de onde vem a energia, onde foi produzida, se é renovável) e garantir uma maior confiabilidade no gerenciamento destes dados e no consumo da energia.
Essa tecnologia tem um alto potencial de revolucionar diversos setores do mercado
Alexandre Pierro, da Palas
“Essa tecnologia tem um alto potencial de revolucionar diversos setores do mercado, assim como o elétrico e o de alimentos, por exemplo – no qual a tecnologia contribui para identificar a origem daquela comida. Ela traz uma enorme transparência às empresas e à população como um todo, assim como uma enorme segurança e rastreabilidade para toda a cadeia produtiva”, disse Pierro à Agência CanalEnergia.
Benefícios
De acordo com o advogado da área de societário e M&A do MTA, Pedro Vasconcellos, o blockchain pode trazer muitos benefícios para o setor de energia, tais como a segurança dos dados armazenados, descentralização na realização das transações, a proteção contra fraudes, a transparência e acessibilidade das informações, a diminuição de custos inerentes ao setor elétrico, integração direta entre vendedor/gerador e o consumidor da energia, desenvolvimento do comércio de energia renovável, a melhora na eficiência das redes de distribuição de energia, e o balanceamento das relações de demanda e oferta de energia.
Acredito que seja uma tecnologia extremamente eficaz e que traz uma variedade de benefícios, tanto para o produtor, o comercializador e consumidor final
Pedro Vasconcellos, do MTA
“Acredito que seja uma tecnologia extremamente eficaz e que traz uma variedade de benefícios, tanto para o produtor, o comercializador e consumidor final”, disse Vasconcellos. O executivo disse à Agência CanalEnergia que a blockchain é confiável, transparente, não está sujeito a perda ou alteração de dados nas transações realizadas, reduz os custos operacionais e, consequentemente, também reduz os custos do produto final e o consumidor ganha muito com a adoção desta tecnologia.
“No Brasil, em específico, o uso do blockchain ainda está em estágios iniciais, mas enxergo um potencial imenso no mercado que viabilizar esse tipo de ferramenta”, ressaltou Vasconcellos. Ele ainda ressaltou que é cedo para determinar se as mudanças ocorridas até o momento vieram para ficar e seus impactos futuros no setor energético brasileiro. Mas destacou que essa etapa inicial já mostra a eficiência do sistema e o que pode vir a ser o nosso futuro, resultando em uma mudança de mentalidade de muitos players do mercado energético.
Redução de custos
A blockchain é um sistema de registros descentralizada, no qual todas as transações são acessíveis a todos os participantes da rede e, uma vez finalizadas, não sujeitas a qualquer tipo de perda, extravio ou alteração. “Entendo que a garantia de acessibilidade e transparência das informações é algo quase que inerente ao sistema de blockchain”, explicou o advogado do MTA.
Em relação à redução de custos e sustentabilidade, Vasconcellos destacou que é preciso entender que as tendências do setor de energia hoje: descentralização, descarbonização e digitalização. “O sistema de blockchain pode alcançar esses três objetivos fundamentais, que conectam a tecnologia com questões ambientais”, disse.
Nesse contexto, tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, possibilitam a análise de grandes volumes de dados para otimizar a eficiência do sistema, reduzir custos operacionais e de manutenção, além de aprimorar a produtividade, segurança e sustentabilidade dos sistemas de energia. Segundo Vasconcellos, essas inovações também fomentam discussões sobre conceitos de cidades inteligentes, redes inteligentes e sistemas de medição avançados, promovendo uma maior eficácia no setor energético. “A digitalização viabiliza uma gestão mais eficiente do fornecimento de energia, contribuindo para a descentralização do setor”, ressaltou.
Vasconcellos ainda ressaltou que o uso da tecnologia de blockchain viabiliza a descarbonização, um objetivo difícil de ser alcançado sem a digitalização dos processos energéticos. “Essa tecnologia permite a distribuição de eletricidade entre residências individuais, promovendo o uso ampliado de fontes renováveis, ao facilitar a redistribuição do excedente de energia pela rede elétrica. Além disso, ao lado de outras inovações, contribui para a construção de uma economia de baixas emissões, ampliando a adoção de energias renováveis. A blockchain também desempenha um papel crucial no rastreamento de créditos de carbono e na digitalização de documentos, ajudando a minimizar a pegada de carbono. Por fim, dá garantia de rastreabilidade na geração de energia, demonstrando de forma clara e eficiente que a energia entregue por um comercializador ou produtor a determinado cliente for gerada de uma determinada fonte de energia renovável, por exemplo”, explicou.
Blockchain X abertura de mercado
A blockchain está mudando cada vez mais o setor de energia ao permitir maior automação e descentralização de dados e de tomada de decisão, além de impulsionar e incentivar a inovação na comercialização de energia e na gestão das redes elétricas.
Para o advogado de sócio da área de energia do L.O. Baptista advogados, Henrique Reis, a blockchain tem um grande potencial para transformar o setor energético, em especial, ao aumentar a segurança e transparência no fluxo e gestão das informações em um setor em processo de abertura gradual de mercado, embora ainda existam desafios de escalabilidade e regulamentação.
Blockchain tem potencial para se tornar essencial para um sistema energético mais competitivo, aberto, descentralizado, sustentável e eficiente
Henrique Reis, do L.O. Baptista advogados
Segundo o executivo, a blockchain pode facilitar a comercialização direta de energia entre consumidores e fornecedores, possibilitando e estimulando novos modelos de negócio e maior competitividade no mercado. “Além disso, a blockchain tem potencial para se tornar essencial para um sistema energético mais competitivo, aberto, descentralizado, sustentável e eficiente, facilitando a gestão de dados, de informações e de redes, bem como a promoção de investimentos em produção de energia a partir de fontes renováveis”, ressaltou à Agência CanalEnergia.
Já para o advogado da área de societário e M&A do MTA, Pedro Vasconcellos, alguns países, principalmente os europeus, possuem abertura total do mercado energético desde a década de 90 (como Alemanha e Reino Unido, por exemplo). Dessa forma, esses países estrangeiros adquiriram há muito tempo a cultura do livre comércio de energia, diferentemente de nós, brasileiros.
“Em um momento inicial, sem a abertura do mercado, a adoção desse tipo de tecnologia não seria mais complexa do que em outros países, tendo em vista que envolveria apenas as entidades que já estão acostumadas a lidar com o comércio energético. Contudo, com a abertura total do comércio energético, ao envolvermos o consumidor final pessoa física na equação (e, portanto, um mercado bastante pulverizado), principalmente por questões regulatórias de proteção a esse consumidor residencial, a questão pode sim se tornar mais complexa”, explicou.
Não tenho dúvida que blockchain e setor de energia se complementam
Gleisson Cabral, do MB
O diretor de inteligência artificial do MB, Gleisson Cabral, acredita que o mercado livre vai permitir bastante o avanço dessa tecnologia. “Mas o ponto é que eu não vejo ninguém no Brasil puxando essa inovação junto às empresas de equipamentos para o setor de energia. Mas eu não tenho dúvida que blockchain e setor de energia se complementam. Temos potencial para desenvolver essa tecnologia junto ao setor de energia”, disse.
Ele ainda ressaltou que hoje já é utilizado blockchain para fazer negociação de contratos de energia de grandes empresas de operação. “Mas acredito que a gente poderia trabalhar também diretamente com todas as empresas”, afirmou à Agência CanalEnergia.
Inovação
Acho que o regulador tem que apoiar essa inovação
Alexandre Reda, do MB
O head de estruturação e produtos do MB Corporate, Alexandre Reda, acredita que a inovação acaba sempre vindo antes da regulação. “Acho que o regulador tem que apoiar essa inovação e estar dentro a esses ajustes necessários, possíveis em leis, em normas infralegais para que essa inovação seja possível e gere eficiência para o mercado. Então essa proximidade do regulador com a inovação é vital para que a inovação aconteça”, ressaltou.
Futuro da blockchain
Existem outros potenciais e usos que as pessoas estão pensando
Geraldo Rochocz, da Radix
Para o CTO da Radix, Geraldo Rochocz, existem outros potenciais usos que as pessoas estão pensando. “Temos o mercado de hidrogênio, que é incipiente agora. Outro ponto é que existe um lado interessante da tecnologia de blockchain, que é muito pouco falado, que são chamados de contratos inteligentes. É onde você programa dentro da blockchain estruturas e cláusulas contratuais. E ele executa aquelas cláusulas naturalmente. Na medida que ela vai certificando isso, que aquelas cláusulas são cumpridas, elas automaticamente aprovam determinadas consequências associadas àquelas. É como se você automatizasse realmente a execução de um contrato. Isso é muito interessante”, explicou à Agência CanalEnergia.
Já o diretor de inteligência artificial do MB, Gleisson Cabral, espera que o Brasil pode se posicionar como referência no tema. “O Brasil é um país de ponta com relação a distribuição, transmissão e geração de energia elétrica, mas eu ainda vejo poucas iniciativas técnicas juntando essas tecnologias”, disse.
Por fim, o especialista de gestão da Palas, Alexandre Pierro, acredita fortemente que o blockchain permitirá a criação de redes mais conectadas, mais inteligentes e eficientes, contribuindo para que a população instale, como exemplo, suas próprias fontes de energias solares em casa para consumo individual – assim como revender o excedente de forma mais eficaz e segura.
“Outra questão que deve crescer ainda mais no futuro é a das energias sustentáveis por conta da integração entre o blockchain e o Big Data. Enquanto o primeiro garante a rastreabilidade das informações – identificando as redes mais ou menos eficientes, assim como o que precisa ser construído em prol da transmissão de energia – a IA, junta ao Big Data, auxiliará na interpretação dessas informações. Juntas, podemos ver um salto de eficiência nesse sentido. Isso contribuirá para uma maior sustentabilidade do setor elétrico como um todo, o que vai, justamente, ao encontro da Agenda 2030 da ONU (17 ODSs)”, finalizou.
Disponível em: Blockchain poderá revolucionar o setor energético – CanalEnergia
