Brasil Energia
Compartilhamento de dados e IA devem ser mais usados, segundo especialistas
Por – Nelson Valencio
Os eventos climáticos severos que atingiram o Rio Grande do Sul e São Paulo vão se repetir em menor ou maior grau nos próximos anos e precisam de maior assertividade das concessionárias, na avaliação de três especialistas ouvidos pela BrasilEnergia.
Dois deles são técnicos e trazem soluções tecnológicas para a mitigação dos desastres e o terceiro é um advogado que acompanha o setor elétrico. Eles defendem mais tecnologia – e menos política – no enfrentamento dos novos tempos.
Para Alexandre Aleixo, especializado no mercado de energia elétrica na Imagem Geosistemas, é preciso agir de modo mais assertivo em situações de emergência e seguir uma cartilha que inclui desde a avaliação dos ativos estratégicos das concessionárias até o entorno das redes, passando pelos sistemas de previsão climática e pelo dimensionamento de equipes de campo.
Aleixo, que participou de ações de mitigação no Sul e tem acompanhado as iniciativas de concessionárias, inclui ainda o entendimento de quais comunidades podem ser afetadas em situação de risco. Ele também lembra que é preciso combinar todas as informações.
“Um exemplo é o cadastro atualizado dos ativos verdes, compartilhado entre todos os envolvidos, sejam as prefeituras e as concessionárias, de modo a acompanhar seu status e delimitar ações de mitigação”, detalha. O especialista adianta que existem tecnologias para isso, inclusive aplicativos para que as equipes de campo atualizem e compartilhem informações.
Outra iniciativa é a simulação das situações adversas, gerando cenários de enfrentamento complexos, caso das enchentes no Rio Grande do Sul. Nesse caso, as geotecnologias podem ajudar a mapear o efeito de interrupção de acessos que, no caso gaúcho, piorou a situação de retomada das infraestruturas, inclusive as de energia.
Daniel Mendes, fundador e CEO da Dataholics, destaca o uso de Inteligência Artificial (IA) para resolver demandas das concessionárias. A plataforma criada por ele identifica startups nacionais e estrangeiras que podem ajudar as distribuidoras em desafios atuais. Para uma concessionária mineira, a empresa identificou startups do Reino Unido que aprimoram os recursos de smart grid para combater os efeitos de apagão. Outro exemplo inclui a otimização de energia solar distribuída e injetada na rede da distribuidora.
“Fizemos uma avaliação criteriosa para identificar as startups e como elas poderiam trabalhar, inclusive em conjunto, em problemas como o monitoramento por meio de dispositivos de Internet das Coisas”, explica Mendes.
Além da tecnologia, o enfrentamento de apagões também passa pela regulação, mas deve evitar as discussões políticas oportunistas. Essa é a avaliação de Henrique Reis, sócio da área de energia do escritório LO Baptista. “A discussão sobre o que realmente importa acaba sendo poluída pelo contexto político e pelas tentativas de isenção de responsabilidade”, argumenta.
Na lista do que importa de fato, Reis elenca temas importantes, que devem fazer parte da regulação da Aneel na renovação das concessões: reforçar que a poda preventiva é de responsabilidade das cidades e não das concessionárias; o dimensionamento das redes, inclusive com a construção de infraestrutura subterrâneas; o tempo de resposta das equipes das concessionárias e a própria definição de evento extremo.
Reis lembra que a discussão sobre cassação da Enel, no caso dos apagões em São Paulo, também precisa ser contextualizada. “Ainda temos alguns anos para o fim da concessão, que acontece em junho de 2028, com a manifestação sobre a continuidade, numa eventual renovação, em 2026”, detalha. Em resumo: o debate, segundo ele, deve ir além das medidas de curto prazo.
