Blocknews
29/04/2026
Quando vazou um ranking interno da Meta classificando colaboradores pelo volume de tokens consumidos em ferramentas de inteligência artificial, o Vale do Silício ganhou um novo termo: tokenmaxxing. A ideia seria encorajar funcionários a usar a maior quantidade possível de tokens, ou seja, da unidade de dado que uma IA processa para gerar respostas. O líder do ranking, apelidado de Claudeonomics, consumiu 328 bilhões de tokens em apenas 30 dias, com um custo estimado de quase US$ 1,8 milhão.
O debate que se seguiu girou em torno de quantidade versus qualidade. Mas há duas perguntas mais urgentes que ainda não receberam resposta à altura: o que acontece com os dados que alimentam esses tokens? E de onde vem a energia que os sustenta?
O risco invisível nos dados
O entusiasmo com o tokenmaxxing carrega um risco que ainda é pouco discutido nos ambientes corporativos e profissionais: o dado que alimenta o token pode conter informação confidencial ou sensível.
Contratos estratégicos, informações financeiras, dados de clientes, segredos industriais — tudo isso pode ser inserido em plataformas de IA por profissionais que buscam ganhar velocidade e produtividade, sem perceber que estão expondo informações que não lhes pertencem ou que estão sujeitas a deveres de sigilo.
Ferramentas de IA externas processam esses dados em servidores fora do controle da organização, e a política de uso de muitas dessas plataformas permite que o conteúdo inserido seja utilizado para o aprimoramento dos próprios modelos. O que parece um atalho de produtividade pode, na prática, transformar-se num canal silencioso de vazamento de informações.
Isso não significa abandonar a IA, mas sim utilizá-la com critério. O tokenmaxxing bem aplicado é uma vantagem competitiva real: profissionais que dominam a IA com profundidade analisam mais rápido, decidem com mais segurança e entregam mais. O que não pode faltar é discernimento sobre o que entra na plataforma. Saber separar o que pode ser compartilhado externamente do que deve ficar dentro da organização é, hoje, tão importante quanto saber usar a ferramenta em si.
O custo energético do token
O custo do token não se limita ao dado que o alimenta. Há um segundo fator ainda pouco visível: energia. Afinal, cada token consumido também representa processamento computacional intensivo e, com ele, uma demanda energética crescente, frequentemente invisível ao usuário final.
O uso intensivo de IA em escala corporativa consome eletricidade em volumes que poucos imaginam: cada token processado passa por servidores que exigem refrigeração contínua e fornecimento ininterrupto de energia.
O Brasil aparece nesse cenário como um destino estratégico para grandes empresas de tecnologia. Com mais de 80% da sua geração elétrica proveniente de fontes renovaveis, o país oferece algo raro: capacidade de sustentar operações intensivas de IA com uma pegada de carbono significativamente menor do que a média global. Grandes players já estudam instalar datacenters em território nacional justamente por isso. A demanda existe, a energia limpa também.
O tokenmaxxing não é apenas uma tendência de gestão ou uma curiosidade do mundo tech. É um espelho de dois desafios concretos que empresas e governos precisarão encarar juntos: o de garantir que o uso intensivo de IA não se torne uma porta aberta para o vazamento de informações sensíveis, e o de planejar uma infraestrutura energética capaz de sustentar essa demanda de forma limpa e eficiente. Quem compreender essa dupla dimensão — a do dado e a da energia — estará à frente de uma transformação que já começou. O token mais valioso, no fim das contas, não é o que foi consumido. É o que foi compreendido.
*Marcos Yuuki Matheus Okamoto, advogado do L.O. Baptista.
Disponível em: Tokenmaxxing: entre produtividade e risco
